CHIKKI 101 — Sobre Violência
CHIKKI 101 — SOBRE VIOLÊNCIA
UMA ANÁLISE AUTOETNOGRÁFICA SOBRE A ARQUITETURA DA VIOLÊNCIA RELACIONAL
[Autoetnografia] [Conhecimento Situado] [Epistemologia Relacional] [Aprendizagem e Vínculo] [Vulnerabilidade] [Análise Social] [Identidade e Visibilidade] [Inscrição Pública] [Ação Simbólica]
Este artigo descreve e analisa um processo de violência relacional que ocorreu num contexto íntimo e doméstico, entre 2021 e 2022. O objetivo é compreender a arquitetura social e simbólica que tornou a violência possível, bem como os mecanismos de silenciamento que se seguiram.
O texto assume deliberadamente uma dupla função: produção de conhecimento situado e intervenção pública no campo simbólico.
A metodologia é autoetnográfica: parto da minha própria experiência, apoiada em registos diarísticos da altura, para identificar padrões, estruturas e efeitos.
O artigo organiza-se em três partes complementares:
(I) Apresento o registo factual dos acontecimentos.
(II) Análise da arquitetura da Violência Relacional — as estruturas que a tornaram possível.
(III) Uma reflexão post scriptum: pela justiça narrativa — reflexão interpretativa pós-analítica em que nomeio o processo de abuso, silenciamento e recuperação.
I — REGISTO FACTUAL DA SITUAÇÃO RELACIONAL (2021–2022)
O registo factual que se segue não pretende ser exaustivo. Os episódios aqui descritos correspondem a exemplos concretos de violência relacional que, à data da escrita, consigo documentar e comprovar de forma objetiva, com base em registos pessoais, diários, mensagens, testemunhos indiretos e dados contextuais verificáveis. Importa esclarecer que os episódios de violência aconteciam quase diariamente e prolongaram-se ao longo do tempo, num processo que durou aproximadamente um ano. Os episódios aqui documentados funcionam como amostra de um padrão relacional mais amplo.
1. Situação Habitacional e Financeira
1.1. Durante o período da relação, eu e o meu ex-companheiro residíamos na mesma casa.
1.2. Eu pagava a totalidade da minha própria renda.
1.3. Contribuía também com parte da renda do quarto do meu então companheiro, que era o maior da casa.
1.4. Trabalhava em dois centros de explicações, realizava estágio curricular na Escola Artística António Arroio, onde estava a aprender a lecionar, em conjunto com a minha orientadora de estágio, a disciplina de Produção Artística — Têxteis; ainda, frequentava as aulas do meu Mestrado em Ensino de Artes Visuais no 3.º Ciclo do Ensino Básico e no Ensino Secundário e desenvolvia prática artística ativa no atelier.
1.5. Assumia a maioria das tarefas domésticas e cuidados, incluindo o animal de estimação do meu ex-companheiro, tendo assistido a episódios de agressão ao animal por parte dele.
2. Condicionamento de Autonomia Social
2.1. A manifestação de intenção de sair com amigas gerava discussão; quando optava por não sair, era porque a discussão já tinha ocorrido previamente, e quando saía mesmo assim, a discussão ocorria posteriormente.
2.2. Em várias ocasiões, este controlo sobre a minha vida social resultou em conflito verbal.
2.3. Reduzi progressivamente o meu círculo social para evitar confrontos.
2.4. O meu tempo de estúdio/atelier diminuiu também significativamente; passava a maioria do (pouco) tempo livre a discutir com o meu ex-companheiro, a tratar de tarefas domésticas ou a passear o seu animal de estimação.
2.5. Houve monitorização implícita das minhas rotinas, horários e disponibilidade.
3. Episódio de Doença (COVID-19)
3.1. Durante um episódio de COVID-19, enquanto o meu ex-companheiro estava doente, era eu que assegurava cuidados, tarefas domésticas e alimentação. Fazia as compras, preparava as refeições, levava-lhe as refeições à cama, lavava a roupa, passeava o seu animal de estimação e lavava os atoalhados, almofadas e capas do sofá que o animal de estimação sujava.
3.2. Posteriormente, fui responsabilizada pelo nosso colega de casa, P., e pelo meu ex-companheiro pela transmissão do vírus na casa.
4. Episódio da Máquina de Lavar (Agressão Física — DARVO)
4.1. Durante uma discussão semântica acerca do uso dos termos “empurrar” e “puxar”, enquanto ele reparava a máquina de lavar, o meu ex-companheiro bateu-me na cara e disse que eu “o tinha levado a fazer isso”, atribuindo-me responsabilidade pela agressão, levando-me a pedir desculpa pela agressão que recebi (padrão DARVO).
4.2. Mais tarde, negou o ocorrido perante terceiros.
5. Episódio da Porta
5.1. Num episódio de tensão, o meu então companheiro puxou-me pela roupa e cabelos para fora da divisão e trancou-se com a minha coelha de estimação dentro do quarto.
5.2. Com base nos antecedentes de agressividade do meu ex-companheiro, sabia que a minha coelha não estava segura; parti o vidro da porta para retirar o animal.
5.3. O episódio foi posteriormente relatado a terceiros sem referência ao contexto, sendo apresentado como prova de “instabilidade emocional” da minha parte.
6. Episódio do Aborto
6.1. Durante esta relação, fiz um aborto.
6.2. Após a primeira consulta, quando manifestei que estava emocionalmente fragilizada e precisava de silêncio, o meu ex-companheiro respondeu: “E eu e os meus sentimentos?”.
6.3. Quando o aborto medicamentoso ocorreu em casa, eu estava na sala.
6.4. O P. pediu-me para me retirar para o quarto, dizendo que eu estava a ocupar o sofá porque ele queria ver televisão.
7. Episódio Familiar e Substituição
7.1. Almoço de família com vários familiares presentes.
7.2. O meu ex-companheiro dirigiu-me agressões verbais e humilhou-me à frente da minha família.
7.3. O meu irmão mais velho chamou-me à parte e afirmou que reconhecia que eu gostava do A., mas que observava que ele não me tratava bem.
7.4. Nos dias seguintes, iniciei uma conversa com o meu ex-companheiro sobre a possibilidade de terminarmos a relação.
7.5. Uns dias depois dessa conversa, fui informada de que teria de sair de casa.
7.6. O meu ex-companheiro comunicou-me que tinha falado com o nosso colega de casa, P.
7.7. Inicialmente, o P. tinha dito que seria ele a sair da casa, mas após este episódio fui informada de que tinha de ser eu a sair.
7.8. A partir desse momento, começou a circular a narrativa de que eu estaria “instável”, utilizada para justificar a decisão de substituição já tomada.
8. Episódio do AVC
8.1. A 21 de julho de 2022, no meu aniversário, o meu pai sofreu um AVC.
8.2. Fiquei em Salvaterra para prestar cuidados.
8.3. O meu ex-companheiro estava num festival de verão (o FMM de Sines).
8.4. Quando informado, desvalorizou a gravidade e fez-me sentir “maluca” por o procurar nesta situação, enquanto ele estava no festival “sem telemóvel”.
8.5. Nenhum dos amigos comuns me contactou durante este período.
9. Episódio do Gás e das Contas: Abuso Económico e Recusa Coletiva de Responsabilidade
9.1. Na casa partilhada, o contrato de gás estava em meu nome. Eu era legalmente responsável pelo serviço e pelos pagamentos.
9.2. Após enviar as contas do gás e os acertos dos últimos meses, as pessoas com quem morava recusaram-se a pagar a parte deles do valor em dívida, afirmando que só pagariam com comprovativos detalhados de consumo.
9.3. Nessa altura, o meu pai estava hospitalizado e eu estava a preparar a casa em Salvaterra para o receber. Apesar disso, fui eu quem: (i) contactou repetidamente a empresa do gás, (ii) pediu reemissão das faturas, (iii) organizou e enviou os comprovativos solicitados. Este processo implicou organizar documentos e várias chamadas para a empresa, um trabalho desgastante.
9.4. Após entregar todos os comprovativos, o pagamento continuou a não ser realizado por nenhuma das três pessoas.
9.5. Importa sublinhar que, neste momento, eu já não estava a habitar a casa, mas as restantes pessoas continuavam a utilizar o serviço.
9.6. Perante a dívida acumulada, pedi o cancelamento do serviço, pois manter o contrato ativo significava continuar a pagar sozinha o consumo dos outros residentes.
9.7. Após o cancelamento, o meu ex-companheiro ligou-me a gritar, dizendo que “por minha causa agora não podia tomar banho”.
9.8. Pouco depois, numa conversa com a Z., foi-me dito que eu tinha sido “infantil” ao cancelar o serviço — ignorando: (i) o contexto de doença grave do meu pai, (ii) a recusa de pagamento por parte do grupo, (iii) a responsabilidade legal que recaía sobre mim.
9.9. Um ano mais tarde, o L. (amigo em comum que ocupou o meu lugar na casa) devolveu a caução.
9.10. Até hoje, nenhuma das contas do gás em dívida foi paga pelas pessoas envolvidas.
10. Ligações e Declarações Posteriores
10.1. A única pessoa que me contactou neste período da minha saída da casa foi a C., que estava ausente nos momentos de maior tensão. Contei-lhe todos os factos aqui descritos.
10.2. Após esse contacto, recebi uma chamada do meu ex-companheiro com as seguintes afirmações:
“Nunca ninguém vai acreditar em ti.”
“És ridícula.”
“Isto é como o Johnny Depp e a Amber.”
10.3. Depois desta ameaça, que me encontrou num estado emocional frágil, demorei anos a conseguir voltar a falar sobre o assunto. Esta ameaça foi a última conversa que tive com o meu ex-companheiro.
11. Consequências Relacionais
11.1. Após esta chamada, deixou também de haver contacto por parte do grupo de amigos comum.
11.2. Não me atendiam o telemóvel; só a Z. me atendeu uma vez e disse: “Estou num jantar em casa do A. e do P., não posso falar.”
11.3. Meses depois, ao reencontrar as mesmas pessoas em eventos sociais, comportaram-se como se nada tivesse acontecido.
11.4. O meu então companheiro manteve integração plena no grupo social.
11.5. Eu deixei de ser incluída nesses espaços e convites.
11.6. Posteriormente, uma amiga em comum admitiu-me que não tinha falado comigo porque estava a prestar apoio emocional ao meu ex-companheiro, referindo que ele estava “muito triste”.
11.7. Não tendo rede de apoio, permaneci em isolamento durante um longo período de tempo.
II— ANÁLISE DA ARQUITETURA DA VIOLÊNCIA RELACIONAL
Aquela casa era apoiada por uma estrutura de violência na qual cada pessoa sustentou uma parte da arquitetura que tornou o abuso possível.
1. PORQUE É QUE O A. FEZ ISTO?
1.1. CONTROLO
O A. procurava manter controlo sobre a relação. A minha autonomia — profissional e social — tornava visíveis fragilidades que ele não conseguia admitir. Ele tentava controlar-me; era mimado, autocentrado e não tinha consideração por mim. Gostava de me ter por perto porque isso validava o seu ego. Tinha dificuldades em construir uma relação real com as pessoas; ao mesmo tempo, preocupava-se imenso com a sua imagem e validação social, por isso parecia “fofo” (usava isto como “moeda” de troca emocional). Quando percebeu que uma relação comigo o obrigava a assumir responsabilidade e a mudar, foi-me destruindo aos poucos, porque ele já não conseguia crescer mais — mas eu ainda acreditava que sim. Quando alguém não tem estrutura interna para sustentar processos de mudança, tende a restringir o espaço e a autonomia do outro, como forma de manter previsibilidade e controlo na relação (Johnson, 2004).
Importa esclarecer: o A. não queria que eu estivesse bem. O que ele precisava era que, no exterior, parecesse que se preocupava comigo. As poucas prendas que recebi foram sempre entregues publicamente. Nunca me tratava mal nem discutia comigo à frente dos nossos amigos. Tudo o que era desgaste, controlo e desvalorização ficava confinado ao espaço privado. Esta separação permitia-lhe manter intacta a sua imagem social, enquanto, na intimidade, a relação se tornava cada vez mais restritiva para mim.
1.1.2. PODER
Durante este período, eu estava num processo de crescimento pessoal significativo: ao frequentar as aulas de mestrado, comecei a compreender melhor a estrutura das relações e a ver certos mecanismos de poder na interação. Desenvolvi linguagem crítica que me permitiu nomear situações que antes apenas sentia; as assimetrias emocionais da relação ficaram mais visíveis. O A. interpretou o meu desenvolvimento como “instabilidade”; a minha capacidade de análise humana ameaçava a posição simbólica que ele ocupava. Na altura, sabia que ele era mais imaturo, mas uma parte de mim queria ensiná-lo a cuidar de mim. Criei expectativas em relação à sua humanidade. Sentia a responsabilidade de o ajudar a crescer.
Ficava dias inteiros a discutir com ele os meus pontos de vista; era desgastante. Ele não queria mudar, queria ter razão. Eu acabava sempre por lha dar porque não aguentava mais (ficava esgotada). Eu não queria discutir. Eu não queria ter razão. Só queria sobreviver a todas as tarefas profissionais e domésticas que tinha — mais do que isso — queria que ele mudasse. A realidade emocional que existia era a dele.
1.1.3. CONFORTO
Depois do episódio que descrevi no ponto I — “7. Episódio Familiar e Substituição Residencial; 7.3. O meu irmão mais velho chamou-me à parte e afirmou que reconhecia que eu gostava do A., mas que observava que ele não me tratava bem” — logo a seguir a esta conversa com o meu irmão mais velho, decidi acabar a relação com o A.
Dias depois de discutir com o A. sobre a possibilidade de acabarmos a relação, a decisão de ser eu a sair da casa foi-me apresentada. (Coincidência?) Assim como a narrativa da minha “instabilidade”, que começou a surgir dias depois desta conversa. (Coincidência?)
A minha saída da casa servia para o A. manter conforto. A narrativa da minha “instabilidade” servia para proteger a sua imagem aos olhos dos outros.
Hoje percebo: o A. não era “mau”, era vazio.
2. PORQUE É QUE O P. FEZ ISTO?
2.1. FRACA AUTOESTIMA
O P. não era o agressor primário. Ele era um dos meus melhores amigos; foi das primeiras pessoas que conheci na faculdade, muito antes de conhecer o A. Muito antes de decidirmos ir todos juntos morar para aquela casa (pior decisão da minha vida). O P. dava-me conselhos amorosos (péssimos) e eu a ele. Mas o P. era uma pessoa com fraca autoestima (admito que o achava um bocado “tótó” por isso). Penso que ele me admirava e invejava ao mesmo tempo.
2.2. DESCONFORTO
Na altura, numa conversa na cozinha, o P. acusou-me de lhe ter passado o vírus COVID-19 na casa. Ao que respondi: — É um vírus invisível. Ele continuou perturbado e a insistir no mesmo, e eu disse: — “P., não podes projetar em mim os males da tua vida”. Ele ficou ainda mais chateado por eu ter usado o termo técnico “projetar” durante a conversa. Mais tarde, noutra conversa, pedi-lhe desculpa por o ter magoado ao ter dito aquilo. Falei com cuidado porque sabia que ele estava numa fase sensível e não o queria “deitar mais abaixo”.
Mas sei que, a partir dessa conversa mais profunda — em que o P. percebeu que eu compreendia o humano e que eu não era só “fofa” — começou a sentir desconforto comigo.
O desconforto que a minha presença lhe causava era também porque eu estava a avançar na vida, na minha carreira; eu sabia e assumia o meu próprio valor, e ele sentia-se estagnado. Ao viver com ele, tornei-me o espelho projetivo do que ele não conseguia ser. Culpar-me poupou-lhe o confronto com a sua própria frustração e com a necessidade de mudança.
2.3. ÓDIO
Antes de me odiar, o P. odiava a C. Estava sempre a dizer mal dela. Quando a C. esteve ausente da casa, o P. começou a odiar-me a mim.
Ele odiava as pessoas para descansar de se odiar a si próprio. Ainda assim, sentia que o P. tinha um carinho fraterno por mim; olhando para trás, vejo que o P. tinha mais carinho por mim do que o meu ex-namorado. Com o tempo, o P. foi ficando cada vez mais frio comigo.
Quando me deram os comprimidos e eu estava a abortar, estava no sofá da sala porque não tinha posição deitada para as dores agonizantes que sentia. O P. disse-me: “Vai para o quarto, estás a ocupar o sofá”. Com isto, percebi que o carinho por mim já não existia.
3. PORQUE É QUE A C. FEZ ISTO?
3.1. ESTABILIDADE
A C., a miúda que também morava connosco, escolheu não intervir. Recebeu a narrativa já formada e manteve-a para preservar estabilidade na sua própria vida.
Este comportamento foi um mecanismo para evitar conflito: agir implicava desconforto emocional; ela escolheu a narrativa dominante e assumiu “neutralidade”. Era só mais uma pessoa a contribuir para a narrativa do agressor. A neutralidade, neste caso, funcionou como forma de violência (passiva).
4. PORQUE É QUE O L. FEZ ISTO?
4.1. BENEFÍCIO
O L. era meu amigo, tal como era amigo deles. O L. era também dos meus amigos mais próximos deste grupo que veio da faculdade. Ele beneficiou da minha saída da casa.
Quando eu deixei aquele espaço, o quarto ficou livre. Ele ficou com ele. Para poder usufruir desse benefício sem conflito interno, aceitou a versão que justificava a minha saída porque era mais fácil.
4.2. CUMPLICIDADE
O L. sabia o suficiente sobre a situação para perceber que a narrativa da minha “instabilidade” não correspondia ao que realmente tinha acontecido.
Conhecia-me. Sabia que aquilo não era a verdade. Mesmo assim, escolheu não ver.
Ou, melhor, escolheu fingir que não via, porque perceber o que se estava a passar implicava admitir que o lugar que ocupou se tornou possível através do meu abuso.
4.3. AUTOABSOLVIÇÃO
Assumir isso teria custos morais e emocionais.
Ele não os quis assumir.
O silêncio dele foi a forma de beneficiar da minha ausência.
5. PORQUE É QUE O GRUPO FEZ ISTO?
5.1. CONVENIÊNCIA
O grupo preservou a narrativa da minha “instabilidade” por conveniência e conforto. O P. e o A. queriam que eu saísse da casa para meter lá o L. (o amigo). A decisão de me substituir surgiu primeiro. A narrativa da minha “instabilidade” surgiu depois, como forma de justificar a decisão, preservando a imagem deles no grupo. A narrativa funcionou para tornar a minha saída “justa” aos olhos de todos.
O grupo aceitou a narrativa.
Intervir teria exigido:
(i) reconhecer a violência,
(ii) reconfigurar as relações internas,
(iii) assumir responsabilidade.
Eram o meu grupo e amigos, pessoas que me conheciam há anos, inclusive que já tinham morado comigo. Eu tinha muitos defeitos, mas nunca tinha partido uma porta.
Toda a gente sabia quem eu era. E escolheu não me ver.
5.2. CONFORMISMO
Depois da ameaça do A., quando ele me ligou a dizer “és ridícula” e “ninguém vai acreditar em ti”, calei-me durante anos. Depois desta ameaça, ainda tentei falar com as pessoas do grupo, mas ninguém mais me atendeu. Eram pessoas que me conheciam bem; por isso, a validação da narrativa e o facto de deixarem de ter contacto comigo foi o que me afetou mais.
Pensei: eles que me conhecem há anos devem ter razão para parar de falar comigo.
Há um elemento que reconheço agora: o A. sabia o quanto os meus amigos eram importantes para mim. A minha exclusão deste espaço teve, por isso, peso simbólico. Não sei se foi planeado, mas sei que não foi acidental.
Com o passar dos dias em meses, meses em anos, já não me sentia triste nem com raiva. Sentia saudades (dos meus amigos). Foi o que me custou mais: o isolamento.
O isolamento é o pior castigo humano; nas prisões, a pior pena a seguir à morte é a solidão.
A violência aqui não foi o que me fizeram.
Foi o que permitiram que acontecesse.
Era mais fácil continuar como estavam.
NOTA REFLEXIVA POST SCRIPTUM: SOBRE BABUÍNOS
Com uma segunda análise, percebi que esta dinâmica era muito mais primária: o que os “amigos” fizeram corresponde ao padrão identificado por Sapolsky em espécies sociais. Sob tensão coletiva, isola-se o membro hierarquicamente mais fraco e concentra-se sobre ele a agressão residual. Nos estudos com babuínos, Sapolsky observa que o indivíduo no nível inferior da hierarquia recebe a maior parte dos ataques porque representa o elemento cuja reação não ameaça a coesão do grupo (Sapolsky, Behave, 2017).
O padrão é o seguinte:
(i) isolamento do membro mais fraco,
(ii) descarga de agressividade do coletivo,
(iii) reorganização da estabilidade interna do grupo através da exclusão.
Conclusão: função adaptativa (para o grupo) e destrutiva (para o indivíduo).
O gaslighting relacional que vivi inscreve-se nesta lógica: o meu estado, naquele momento, dava-lhes poder sobre mim. O grupo, pela narrativa do A. e do P., pensou que eu estava instável e frágil, o que os fez não me ver como um bom “investimento social” e como o “babuíno mais fraco” no qual era “permitido” descarregar agressividade para aliviar a tensão interna do grupo.
Se alguém deste grupo estiver a ler: valeu a pena agirem num estado pré-reflexivo, escravos de um status social similar ao dos babuínos selvagens?
6. O QUE TORNOU A VIOLÊNCIA POSSÍVEL?
A violência nesta casa foi resultado de uma configuração relacional onde se articularam três elementos fundamentais:
(1) a desresponsabilização de quem exerceu violência direta;
(2) os benefícios obtidos através da narrativa da minha instabilidade;
(3) a opção do grupo por preservar a estabilidade social em vez de enfrentar o abuso.
A estes fatores juntou-se um quarto elemento, decisivo nas dinâmicas de abuso psicológico: a desautorização progressiva da minha própria perceção. À medida que os episódios se sucediam, a minha capacidade de confiar em mim mesma e na minha interpretação da realidade foi diminuindo.
O primeiro agressor, o A., pôde agir porque encontrou um enquadramento que lhe permitiu evitar assumir responsabilidade, preservando para si a imagem de alguém “afetado” ou “ferido”. Esta inversão de posições corresponde ao padrão DARVO (negar, atacar e inverter papéis), frequentemente presente em casos de violência psicológica. A narrativa pública que circulou refletiu uma versão conveniente para manter a coerência moral do agressor e do grupo.
Ele continuou nos mesmos espaços sociais, a receber atenção; ocupava a posição simbólica de vítima. Eu fui anulada, descredibilizada e isolada.
A narrativa da minha alegada “instabilidade” permitiu justificar a minha exclusão sem admitir violência.
O abuso tornou-se possível, portanto, porque cada parte envolvida encontrou uma vantagem na manutenção da narrativa falsa:
(i) o P. e o A., os agressores, protegeram a sua imagem e ficaram com a casa;
(ii) a C. e o L. evitaram assumir responsabilidade;
(iii) o grupo preservou a sua coesão.
Eu, fragilizada pela descredibilização sistemática da minha perceção, perdi temporariamente acesso ao meu próprio critério interno.
Deixei de ter lugar para a minha palavra existir.
A primeira violência é interna:
O A. não olhava para si próprio.
O P. não se sentia bem consigo próprio.
A C. não quis ver.
O L. fingiu que não viu.
Os outros escolheram não ver.
E eu, quando olhava para mim, já não me via.
7. PORQUE É QUE ESCREVO ISTO AGORA?
Estou sossegada. Escrevo a análise factual.
Durante aquele período, a minha perceção da realidade foi sendo manipulada por narrativas externas. Demorei anos a recuperar a capacidade de nomear os acontecimentos a partir do que vi e vivi. Sendo a base metodológica da minha investigação atual a autoetnografia, dou agora sentido a todo este “trabalho de campo”.
III— UMA REFLEXÃO POST SCRIPTUM: PELA JUSTIÇA NARRATIVA
Esta secção integra uma reflexão pós-analítica. O objetivo é explicitar os efeitos do processo de violência relacional sobre o juízo, a perceção e a narrativa como ato de restituição simbólica.
III.I. SOBRE CULPA
Durante meses, eu própria acreditei na narrativa que criaram sobre mim. Roubaram-me a realidade. Por consequência de viver isolada naquela casa, por controlo do A., falava só com o A., o P. e a namorada do P.
O meu mundo social era o que eles me diziam, as mesmas palavras que os amigos que tínhamos em comum validavam quando iam lá a casa. Durante este tempo, fui escrevendo no meu diário; a pergunta mais frequente em mim era: O que é que preciso fazer para não errar mais? E quando é que vai ficar tudo bem? Achava que tudo o que tinha “corrido mal” era culpa minha.
Pedi desculpa por tudo; ainda assim, sobrou uma parte.
Depois, achei que o que aconteceu ao meu pai no meu dia de anos era também culpa minha, um castigo por eu ser como era. Só queria melhorar; já não gostava de mim própria. (Esta perceção de culpa total era uma consequência direta de abuso psicológico prolongado: quando alguém é sistematicamente responsabilizado pelo sofrimento e pelas falhas do outro) (Herman, 2022; Walker, 2020).
III.II. SOBRE RESPONSABILIDADE
Mais tarde, tentei anestesiar-me de pensar neste assunto; dava-me raiva. As estratégias mesquinhas, as coisas que me fizeram e disseram, a maneira como o A. foi ficando com o controlo narrativo sobre mim, porque eu não falava com mais ninguém.
Como eu não falava com mais ninguém do grupo na sua ausência, ele controlava a imagem que tinham de mim: implementou aos poucos a ideia de que eu era “instável” e demasiado “sensível”, em mim e nos outros. Na altura, estava a tentar sobreviver à minha rotina sobrecarregada de tarefas profissionais e domésticas; não via isto. Quando percebi, senti-me burra pelo que permiti acontecer (eu confiava no A., no P., no L., na C., na namorada do P., na namorada do L., na Z… no meu grupo de amigos).
Quando me recuperei, ao ler o diário novamente, percebi todas as formas de abuso relacional a que estive sujeita naquela casa. Eu acreditava no amor, na amizade e que eles podiam crescer emocionalmente e que ia ficar “tudo bem”. Nunca os vi a assumir responsabilidade sobre a verdade do que fizeram.
Ainda guardo a imagem do sofá azul-esverdeado / verde-azulado, o sofá onde abortei ao mesmo tempo que me diziam para parar de “exagerar”, que “não podia doer assim tanto”. Aposto que esse sofá ainda está na casa; felizmente, eu já não.
III.III. SOBRE JUÍZO
Quando recuperei o meu juízo e comecei a perceber tudo:
(i) Primeiro, senti tristeza profunda. Fisicamente, sentia um nó na garganta, não conseguia comer, fiquei apática; só fumava cigarros compulsivamente.
(ii) Depois, raiva. Comecei a mandar murros nas almofadas e a fazer o dedo do meio para ninguém. Mandei-os tantas vezes para o caralho na minha cabeça. Repetia todos os episódios em loop e só pensava: Como é que permiti isto acontecer?
(iii) Com o tempo, comecei a compreender tudo, a perceber exatamente o lugar de toda a gente na falsa narrativa. Passei a olhar-me ao espelho e a reconhecer também o meu lugar, a verdade sobre quem sou — e a gostar de mim por isso. Por tudo o que passei, senti-me confiante. Pensei: não parto; o meu coração é de peluche; ninguém mais me aleija; não tenho medo de mais nada; já vivi um inferno; sou feita de g111ter.
SOBRE VIOLÊNCIA
Este nível tão elaborado de violência psicológica não aconteceu porque o A. era o “mau” da história. Aconteceu porque todos contavam a mesma história, enquanto eu já não tinha mais voz para falar.
A mentira sobreviveu no meu silêncio, e eu sobrevivi em silêncio, até agora.
Os factos estão registados. As pessoas que exerceram violência sobre mim, por mais que tentem desvalorizar ou ridicularizar o que se passou, vão ter de viver com o que fizeram.
Vão ter de viver no único lugar onde não se podem mentir: sozinhas no seu pensamento, na cama, antes de adormecer. Quando se olharem nesse espelho, vão perceber a verdade sobre quem são.
E eu?
Continuo com a minha prática artística e docente: a produzir songs, a dar gigs, a dar aulas, a fazer Puffis e Drips, a escrever artigos.
Continuo com as minhas crianças em Chelas, todos os dias, a aprender a ser. A ensinar a ler e escrever; a decomposição numérica, a unidade, dezena, centena; os direitos das crianças; os ossos do corpo humano; a desenhar estrelas para a árvore de Natal… A partilhar a minha própria humanidade.
Continuo com família, amigos, com a minha comunidade e com amor.
Continuo a ser a Princesa do SAUCE.
Xoxo,
Chikki.
NOTA METODOLÓGICA
Este artigo ensaístico de natureza autoetnográfica utiliza dados provenientes de registos pessoais, diários e notas. A escrita é situada; articula experiência e análise crítica. (Consultar Mapa)
ESCLARECIMENTO DE TERMOS E CONCEITOS
Abuso
Relação assimétrica de poder em que alguém exerce controlo contínuo sobre outro, através de práticas de manipulação relacional, que visam a subjugação da autonomia, do juízo e da capacidade de agência da vítima (Herman, 2015).
Abuso Económico
Forma de abuso relacional em que o agressor controla, explora ou transfere responsabilidades financeiras para a vítima, restringindo a sua autonomia material e utilizando a dependência económica como mecanismo de controlo, coerção e silenciamento (Adams et al., 2008; Herman, 2015; Stark, 2007).
Abuso Psicológico
Processo relacional de dominação assimétrica no qual um sujeito exerce controlo contínuo sobre outro através de manipulação emocional, desresponsabilização e erosão progressiva da autonomia e do juízo da vítima, produzindo efeitos cumulativos sobre a sua capacidade de agência e auto-interpretação (Herman, 2015; Walker, 2020; Freyd, 1997).
Silenciamento
Forma de abuso psicológico em que a vítima é levada a duvidar da sua perceção e da possibilidade de ser ouvida; resulta de gaslighting, difamação e inversão moral (Stern, 2018; Freyd, 1997; Herman, 2015).
Manipulação
Prática relacional de controlo pela qual um sujeito influencia deliberadamente a perceção, o juízo e o comportamento do outro através da distorção da informação e pressão emocional, com o objetivo de manter poder e vantagem relacional (Freyd, 1997; Stern, 2018).
Narrativa Projetiva
Mecanismo social em que um grupo atribui a um indivíduo falhas ou tensões que não reconhece em si; funciona para estabilizar a autoimagem moral dos indivíduos do grupo, aderindo à lógica de bode expiatório (Girard, 1972).
Exclusão Simbólica
Processo que nega a legitimidade discursiva do sujeito, impedindo-o de participar na construção da realidade comum (Bourdieu, 1989; Arendt, 1958; Butler, 1997).
Gaslighting
Manipulação psicológica que leva a vítima a duvidar da própria memória, interpretação e perceção da realidade (Stern, 2018).
Gaslighting Coletivo
Versão grupal do gaslighting, em que vários membros validam a narrativa do agressor e invalidam a perceção da vítima (Stern, 2018).
DARVO
Estratégia de abuso em que o agressor nega, ataca e inverte os papéis vítima/agressor (Freyd, 1997).
Violência Psicológica
Forma de violência simbólica e relacional exercida por meio de gaslighting, humilhação, ameaça, isolamento e controlo narrativo, que compromete a integridade psíquica e a confiança da vítima na sua própria perceção da realidade, podendo adquirir caráter sistémico quando validada coletivamente (Stern, 2018; Herman, 2015).
Violência Relacional
Conjunto de práticas de abuso, manipulação, exclusão e silenciamento exercidas através de vínculos afetivos e de proximidade. Não depende de agressão física; opera pela anulação simbólica, controlo emocional e erosão da realidade do ser (Dejours, 1998; Bourdieu, 1989; Chikki, 2025, em Chikki 101 — Sobre Violência).
Violência Sistémica
Violência produzida pela articulação de agressão direta, narrativa falsa, omissão grupal e benefício estrutural (Herman, 2015; Bourdieu, 1989).
Violência por Omissão
Violência exercida quando observadores não intervêm perante abuso, permitindo a sua continuidade (Arendt, 1963; Herman, 2015).
Inversão Moral
Processo pelo qual o agressor se apresenta como vítima e a vítima como agressora (Arendt, 1963; Freyd, 1997).
Isolamento Social
Ostracização social relacional que fragiliza a vítima e facilita a sua manipulação.
Justiça Narrativa
Restituição da verdade experiencial da pessoa violentada através da recuperação pública da sua narrativa, interrompendo o silenciamento, a inversão moral e a exclusão simbólica que sustentam a violência (Herman, 2015; Butler, 1997).
REFERÊNCIAS
Adams, A. E., Sullivan, C. M., Bybee, D., & Greeson, M. R. (2008). Development of the Scale of Economic Abuse. Violence Against Women, 14(5), 563–588. https://doi.org/10.1177/1077801208315529
Arendt, H. (1958). The Human Condition. Chicago: University of Chicago Press.
Arendt, H. (1963). Eichmann in Jerusalem: A Report on the Banality of Evil. New York: Viking Press.
Bourdieu, P. (1989).O Poder Simbólico. Lisboa: Difel.
Butler, J. (1997). Excitable Speech: A Politics of the Performative. New York: Routledge.
Freyd, J. J. (1997). Violations of Power, Adaptive Blindness, and Betrayal Trauma. Feminism & Psychology, 7(1), 22–32.
Herman, J. L. (2015). Trauma and Recovery: The Aftermath of Violence — From Domestic Abuse to Political Terror. New York: Basic Books.
Herman, J. L. (2022). Truth and Repair: How Trauma Survivors Envision Justice. New York: Basic Books.
Johnson, M. P. (2004). Conflict and Control: Gender Symmetry and Asymmetry in Domestic Violence. Violence Against Women, 10(9), 1003–1018.
Sapolsky, R. M. (2017). Behave: The Biology of Humans at Our Best and Worst. New York: Penguin Press.
Stern, R. (2018). The Gaslight Effect: How to Spot and Survive the Hidden Manipulation Others Use to Control Your Life. New York: Harmony Books.
Stark, E. (2007). Coercive Control: How Men Entrap Women in Personal Life. New York: Oxford University Press.
Walker, L. E. (2020). The Battered Woman Syndrome (4th ed.). New York: Springer Publishing.