CHIKKI 101— Off The Book

CHIKKI 101 OFF THE BOOK – UMA REFLEXÃO SOBRE PRÁTICA ARTÍSTICA INDEPENDENTE

[Análise Social] [Cultura Digital] [Identidade e Visibilidade] [Desenho como Inscrição] [Inscrição Pública] [Ação Simbólica] [Prática Ontológica] [Vulnerabilidade] [Conhecimento Situado] [Epistemologia Relacional] [Prática como Investigação]

NOTA INTRODUTÓRIA:

Muito pouca gente vai falar do que falo aqui sem cinismo e sem romantização. 

Faço uma análise e reflexão da minha posição enquanto prática artística independente dentro do campo institucional contemporâneo.

O que escrevo não é sobre as galerias, instituições, artistas estabelecidos, centros, residências, espaços institucionais ou colecionadores que me apoiaram na minha carreira artística — fizeram mais do que bem.

Falo sobre quem nunca o fez e, sobretudo, da própria arquitetura do campo. 

By the Book 

Fiz tudo by the book.

Ainda assim, estou a escrever a história errada.

Fiz aquilo que me foi ensinado como sendo o percurso correto dentro do campo artístico.

Licenciei-me em Artes Plásticas. Entrei cedo no campo de visibilidade. Candidatei-me a concursos. Ganhei o prémio Arte Jovem. Comecei a expor. A partir daí, fiz o que se faz: exposições sucessivas, trabalho contínuo, acumulação de capital simbólico. Durante anos, sem ser remunerada, aceitei a lógica implícita de que a exposição é um investimento. Trabalha-se agora para talvez existir com legitimidade dentro do meio– um dia. A cultura das artes visuais organiza-se em torno desta promessa. O acesso a um espaço físico de exposição é a condição fundamental para que o trabalho exista de forma legítima. Não expor é desaparecer: a morte (simbólica) do artista. É mais sobre lugares do que sobre financiamento — lugares escassos, onde se disputa valor simbólico. 

Tenho vinte sete anos, ando nisto desde os vinte.

Já não sou uma jovem promessa.

Durante quanto tempo vou sustentar dentro de mim a esperança de retorno?  

I. SOBRE VALOR

A docência na escola pública deu-me estabilidade económica. Essa estabilidade permitiu-me sustentar a minha prática durante anos, sem apoio institucional.

O meio artístico exige presença física contínua: inaugurações, eventos, circulação social. A minha prática docente a tempo inteiro não me permitia esta presença. Perante a limitação física, recorri ao espaço digital.

Com o tempo, a presença digital cresceu. Produzi, escrevi, documentei processos, expus online. Tornei-me visível onde não podia estar fisicamente.

No campo artístico, não havia estrutura económica nem reconhecimento institucional estável.

Na escola, a minha prática artística passou a ser observada, avaliada e julgada segundo critérios normativos da docência.

Ou seja:

não estando presente no meio artístico, fui penalizada pela ausência;

tornando-me visível no espaço digital, fui julgada dentro da instituição escolar;

existindo como artista, fui lida como professora fora do lugar.

Fiquei sob vigilância dupla: do meio artístico e da instituição escolar.

Em ambos os casos, em permanente exposição.

Ambos os contextos consumiam-me e julgavam-me sem me admitirem valor.

NOTA ADICIONAL: SOBRE A SÍNDROME DE HANNAH MONTANA

Esta vida dupla é um dos problemas que denuncio na minha dissertação “Síndrome de Hannah Montana na Escola Pública: Prática Artística, Visibilidade Digital e Autoridade Docente”, que irei defender em breve. Por esse motivo, não é necessário continuar, aqui, uma explicação exaustiva sobre a problemática associada à minha presença em ambos os contextos. 

II. SOBRE VALIDAÇÃO

Sempre soube o que queria fazer: manter a prática, trabalhar de forma contínua e acumular capital simbólico para, a prazo, tentar convertê-lo em capital económico e garantir estabilidade à prática.

A docência permitiu-me esta estratégia. A estabilidade económica do trabalho docente deu-me condições para continuar a trabalhar sem depender da circulação num meio mesquinho e competitivo. Ao mesmo tempo, a docência implica uma carga elevada de responsabilidade: planear aulas, gerir burocraticamente uma direção de turma, escrever atas, cumprir procedimentos institucionais.

É irónico: Desde cedo carreguei aos meus ombros uma carga absurda de responsabilidades "adultas", apesar disso, o meu trabalho foi frequentemente infantilizado.

A valorização quando vinha era desproporcional ao compromisso e responsabilidade que eu assumia na prática.

Porquê?

Por serem Puffis e não uma pintura chata?

Mas o objetivo de uma prática expositiva não é criar problemas, de forma a alargar o campo?

III. SOBRE VULNERABILIDADE

É claro que com tudo isto existe um sentimento de injustiça intenso que reside em mim, talvez sejam os fantasmas da meritocracia, mas penso: Então o que me falta? O que me falha? 

Em qualquer outra carreira, com o tempo e trabalho já teria progressão (teoricamente). 

Durante estes anos em que podia ter viajado, saído, comido melhor, ir ao cinema. Fiquei fechada naquele atelier. (Ler Chikki 101–Sobre Vulnerabilidade) Atenção, dedicar-me à prática, foi uma escolha minha, não estou a romantizar, muito menos vitimizar-me. 

Posto isto, é expectável que eu sustente indefinidamente a minha prática artística com o meu salário de professora?

É suposto voltar para o Ribatejo para viver com meus pais?

Costurar Puffis no meu quarto em Salvaterra?

IV. BOLSAS, RESIDÊNCIAS, CONCURSOS PÚBLICOS, OPEN CALLS

Concorrer a bolsas e concursos públicos implica trabalho não remunerado. Escrever candidaturas, adaptar projetos, preparar portefólios, sem garantias.

Este regime pressupõe tempo disponível para trabalhar gratuitamente. A carga horária da docência não me permite ter um segundo trabalho invisível e não pago: o de concorrer a estas merdas.

V. GALERIAS, GALERISTAS E ESPAÇOS DE EXPOSIÇÃO

A representação por uma galeria depende da confiança do galerista. A representação não depende da qualidade do trabalho, mas de confiança social construída por circulação nos mesmos espaços e posicionamento.

Lembro-me de, há alguns anos, ter pedido representação a uma galeria e de me terem respondido: —"Tens que chamar mais a atenção”.

Imediatamente, enquanto estava a usar um Chikki Drip rosa fluorescente e uma bolsa de Puffi unicórnio e crocs (que não é propriamente a estética mais discreta) perguntei-me: Então, o que é que tenho estado a fazer ao longo destes anos?

Na mesma galeria é hoje representada uma pintora beta, da minha idade, que fez o mestrado no estrangeiro e que soube posicionar-se. Não sinto inveja, já senti inveja e esta sensação é diferente. Sempre que penso nisto, tenho uma sensação de injustiça profunda no peito, no meio do busto e na garganta, um nó que me aperta. Esta sensação vem porque compreendo as coisas. 

Percebo que a diferença não esteve na continuidade do trabalho, mas na circulação, no percurso reconhecível e na adequação às expectativas do meio. 

Com tudo isto, tenho a sensação de que me instrumentalizaram, ao longo dos anos. Nesta fase da minha carreira, já devia ter algum apoio mínimo. Um apoio que me permitisse, por exemplo ter só meio horário na escola e conseguir ter mais tempo para criar e financiar um atelier. 

VI. FUNDAÇÕES E INSTITUIÇÕES PRIVADAS

As fundações e instituições privadas funcionam segundo a mesma lógica das galerias: confiança, círculo social e reconhecimento entre pares que já ocupam uma posição legítima no meio.

Ao contrário do que por vezes se pressupõe, a docência não cria capital social útil no meio das artes; pelo contrário, impede a entrada nas dinâmicas informais, mesquinhas e altamente relacionais que estruturam o campo. A escola, cria, sim, estabilidade económica para trabalhar — mas não capital social convertível em valor institucional legítimo.

Num sistema assente em posicionamento social, oito horas diárias de docência não criam contactos. 

No meu primeiro ano como docente, admito, tinha mais possibilidades de falar com o treinador do sacavenense do que contactar uma instituição. 

VII. COLECIONADORES PRIVADOS SEM MEDIAÇÃO INSTITUCIONAL

Os rendimentos que obtive enquanto artista vieram, sobretudo, de colecionadores privados que acompanharam o meu trabalho ao longo do tempo e decidiram apoiar-me diretamente. Chegaram até mim através de uma relação direta, procuravam-me de forma a apoiar-me materialmente. 

VIII. PRÁTICA VS EXPOSIÇÃO

A prática, como já expliquei, é ontológica: o desenho como inscrição independente do médium é condição fundamental para mim como ser-no-mundo. 

A exposição é importante porque cria cultura. Produz pensamento, linguagem no espaço público. Manter a práxis artística privada é a meu ver, egoísta, pois não contribui para criar cultura no espaço comum.

A maior parte das exposições são sustentadas pela esperança futura de ter alguma retribuição.

.

IX. SOBRE UNDERGROUND

No underground, nada do que disto se aplica. Vou continuar a dar Gigs; aliás, vou lançar um EP em janeiro. 

Aqui, sempre fui apoiada por coletivos, editoras, pequenos espaços, labels independentes, venues independentes, outros artistas independentes. No underground dão o que podem, ajudam como podem. Falo de sítios onde o apoio financeiro não existe muito, e ninguém está a lutar pela bolsa de uma fundação qualquer, nem sabem quem é a Carmona e Costa.

Por isso, Puffis ficam por agora no Desterro. Drips só nos meus Gigs. E Gigs vou continuar a dar sempre; independentemente se sou julgada através da lente normativa da docência.

Vou trabalhar.

Onde a cultura existe.

Onde o apoio é horizontal e não paternalista. 

Onde me deixam ser a Princesa do SAUCE. 

OFF THE BOOK

Posto isto, percebe-se que o campo institucional da arte é, para mim, neste momento, como um namorado tóxico: trabalho muito, sou desvalorizada, infantilizada e, se for preciso, ainda me acusam de instabilidade. 

O meu problema não se resolve com mais exposição gratuita, nem com mais esforço individual, nem com um melhor posicionamento social. Resolve-se estruturalmente.

Resolve-se quando a exposição deixa de ser tratada como favor ou investimento simbólico e passa a ser reconhecida como trabalho cultural remunerado. Resolve-se quando instituições públicas e privadas assumem que criar cultura tem custo económico e responsabilidade coletiva.

Resolve-se quando não se espera que um artista sustente, com o salário (miserável) da escola pública, a sua contribuição para a cultura. Quando a prática deixa de depender de sacrifício pessoal permanente para ser considerada legítima.

Recuso existir num sistema que confunde exploração com mérito.

Recuso ganhar estatuto à custa da minha própria exploração.

Não é uma solução individual.

É um problema de campo.

Decidi manter a prática privada, por agora e recusar a exposição nas condições atuais. A exposição é trabalho.

O meu trabalho é divertido mas não é entretenimento.

Fiz tudo by the book.

Depois de ler o manual inteiro, agora sou eu quem escreve as regras.

Xoxo,

Chikki.

NOTA POST SCRIPTUM — SOBRE MERITOCRACIA INSTITUCIONAL

UM BREVE ESCLARECIMENTO SOBRE A MINHA POSIÇÃO:

I. Assumo responsabilidade pela minha prática enquanto trabalho cultural com efeitos públicos.

Por essa razão, recuso a lógica que trata a exposição como favor, promessa futura ou investimento simbólico. A exposição é trabalho.

II. Recuso a moral do sacrifício individual como critério de legitimidade. Exigir trabalho cultural não remunerado sob a promessa de reconhecimento futuro é uma escolha estrutural.

III. Recuso o jogo de acumulação de capital simbólico em que tenho que pedir entrada,

disputar reconhecimento, mendigar valor e 

acumular sinais de pertença.

VI. O problema não é individual. É um problema da própria arquitetura do campo simbólico do meio: a transferência do custo da produção cultural para o corpo de quem cria.

V. Sair parcialmente de certos espaços é uma forma de objeção consciente às condições actuais de exposição e legitimação.

VI. Mantenho a prática privada porque ela é ontológica, não instrumental. Recuso regimes que confundem exploração com mérito.

VII. Deixo o desafio a artistas, instituições e intermediários para reverem a sua posição no campo. 

Ajudem-me a perceber: 

Li mal o manual de instruções? 

NOTA FINAL DE ESCLARECIMENTO:

Este texto não segue a metodologia autoetnográfica dos restantes artigos do Chikki 101.

Trata-se de uma nota crítica e reflexiva, o que justifica a ausência de referências académicas.

Para enquadramento, consultar Mapa.

APÊNDICE I: ESCLARECIMENTO DE TERMOS E CONCEITOS

Prática artística independente

Prática artística desenvolvida sem suporte institucional estável.

Campo artístico / arquitetura do campo

Conjunto de regras, hierarquias e mecanismos de legitimação que estruturam o meio artístico.

Capital simbólico

Reconhecimento e legitimidade socialmente atribuídos, com possibilidade de conversão noutras formas de capital (Pierre Bourdieu, 1986).

Validação

Reconhecimento de uma prática ou posição como legítima dentro de um campo, atribuído por agentes ou estruturas com poder de consagração dentro do mesmo.

Valor

Atribuição simbólica e económica produzida no interior do campo artístico. Não coincide necessariamente com trabalho, continuidade da prática ou impacto cultural.

Exposição

Dispositivo central de legitimação que implica trabalho, custos e investimento. 

Trabalho cultural

Trabalho produtivo que gera valor simbólico e cultural, independentemente de remuneração.

Legitimação

Processo através do qual uma prática passa a ser reconhecida como válida dentro de um campo.

Posicionamento

Lugar que se ocupa no campo artístico em função da circulação, reconhecimento e leitura social do percurso.

Circulação

Presença regular em espaços, eventos e redes sociais que estruturam o reconhecimento e legitimidade do campo.

Representação

Mediação institucional ou comercial que valida e distribui o trabalho.

Mediação

Intervenção de intermediários que condicionam o acesso à visibilidade e ao reconhecimento.

Exploração simbólica

Extração de valor cultural sem compensação material proporcional.

Meritocracia institucional

Narrativa que legitima desigualdades estruturais através da responsabilização individual.

Prática ontológica

Prática entendida como condição de existência, não como instrumento de carreira.

ANEXO I: EXPOSIÇÕES INDIVIDUAIS

2024
Winx of Desire, Centro Cultural de Belém, Lisboa.

2023
Floresta Mágica, Galeria Zaratan, Lisboa.

ANEXO II: EXPOSIÇÕES COLETIVAS

2025
Wild Card, instalação Blood on the Puffifloor, Galeria Balcony, Lisboa.

2024
PUFFI GAME, colaboração com Miguel de Sousa Cardinho, Galeria Zé dos Bois, Lisboa.

2023
The First Contemporary Art Museum of Macau, Taipa Village, Macau.
Drowning Room Art Fair, Cosmos, Campolide, Lisboa.
O Encanto só Anda no Horário da Maré, Galeria Balcony, ARCO Art Fair, Lisboa.
Por-pol Net, Polónia (online).
Por-pol Net, Passe Vite, Lisboa.
Parabéns Fun, Arroz Estúdios, Lisboa.

2022
Hidroginástica, Cosmos Campolide, Lisboa.
Carpe Diem – Prémio de Arte e Pesquisa, Hospital Júlio de Matos, Lisboa.
Sem Chumbo, Hospital Termal, Caldas da Rainha.

2021
O Puff, Centro de Artes, Caldas da Rainha.
O Papel do Engenho, Centro de Artes, Caldas da Rainha.

2020
Gato Vermelho (Novembro), Eletricidade Estética, Caldas da Rainha.
O Papel do Engenho, Centro de Artes, Caldas da Rainha.

REFERÊNCIAS ADICIONAIS

Consultar:
Chikki 101 — Sobre Vulnerabilidade (2025)
Curriculum Vitæ
Exposições/ Prática

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